No ano de 2005, quando eu ia começar a terceira série, meus pais me mudaram de escola.
(...)
Tudo começou bem. A primeira semana foi boa, eu me enturmei, a minha sala era no segundo andar ao lado de um banheiro e tudo parecia correr tranquilamente. Um dia a diretora entrou na nossa classe dizendo que uma bolsa de ballet e uma caixa de lápis de cor da Faber Castell com vinte e quatro cores tinham desaparecido no banheiro ao lado da minha sala. Uma menina deixou na pia para usar o banheiro e quando ela saiu não estava mais lá. Eu mal sabia, mas esse roubo iria me atormentar por um longo tempo.
A diretora disse que a bolsa tinha sumido em certo dia da semana e a menina que pegou usava um tênis branco. Por uma maldita coincidência eu tinha ido ao banheiro aquele dia e meu tênis era um Nike branco. Não demorou muito para a sala inteira me chamar de ladra e dizer que eu tinha “roubado” a bolsa e a caixa de lápis da menina. Quando batia o sinal do fim do recreio, todos os alunos iam para uma mesa e se arrumavam em filas por série para subir e ir para a sala. Depois de a diretora perceber que estavam me acusando, ela passou a falar, quando batia o sinal e todas as salas estavam juntas, que ela sabia quem tinha roubado a bolsa e a caixa de lápis, e se a pessoa não se entregasse, ela ia mandar a polícia na casa dessa pessoa. A diretora ia todos os dias na minha sala e ficava do meu lado falando. Ela não dizia meu nome, mas olhava para mim. Os alunos da minha sala ficavam comentando que eu tinha roubado a bolsa. Como consequência, eu voltava para casa, contava para a minha mãe e todos os dias chorava muito por isso.
Certo dia minha mãe foi à escola conversar com a diretora, mas por incrível que pareça, nada mudou. Ela continuava com as mesmas atitudes. Eu virei uma menina sozinha e confusa. Quando eu chegava em casa perguntava para a minha mãe chorando “mãe, fala, fui eu quem roubei essa bolsa? Por favor, fala”. Vendo isso, minha mãe foi falar de novo com a diretora, mas nada mudou.
Eu comecei a ficar ainda mais confusa. Eu não sabia se tinha roubado a bolsa com os lápis de tanto que as pessoas falavam que eu tinha roubado. Parecia que eu estava ficando louca e o que os outros diziam me confundia. Eu aguentei seis meses tendo essa vida infernal, até que meus pais me tiraram daquela escola e poucos meses depois a bolsa e a caixa de lápis foram achadas. Outra menina tinha escondido e eles viram que eu era inocente.
Até hoje eu sofro um pouco com isso, porque quando algo some ou é roubado eu fico desesperada procurando o que sumiu para ninguém me acusar. Algumas pessoas que estudavam na minha sala ainda lembram-se disso. Foi muito difícil superar e hoje quando eu vejo alguém sendo vítima de injustiças eu tento ajudar porque eu sei como isso é desagradável.
(Mariana)

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